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1.8.05

O túnel da Ribeira

Não há portuense, pelo menos da minha geração para cima, que não se lembre das buzinadelas no túnel da Ribeira. Fosse feriado ou dia de trabalho, não havia carro, camião ou velocípede que entrasse no túnel sem tratar de, alarvemente, meter a mão na buzina em sinfonia sincopada, até que tudo aquilo se transformasse numa enorme chinfrineira. Não se sabe quando nem quem lançou a ideia peregrina, mas o certo é que o túnel da Ribeira era sinónimo, há uns anos atrás, de hora do recreio para matulões automobilistas.
A edilidade portuense, com o tempo, vigilante e impiedosa, fez tudo para acabar com a palhaçada das buzinadelas do túnel, suponho que com o objectivo parolo de que a cidade se aproximasse mais da cibilizaçom e se parecesse menos com um bando de arruaceiros que buzinam em túneis por puro deleite vandalizante. Os agentes da autoridade passaram, então, a assombrar as imediações mais do que é costume em qualquer outro ponto da cidade. E, chegada a repressão, ninguém mais buzinou.

Ontem passei por lá e não resisti. Era Domingo, o dia estava solarengo. E pensei – que se lixe, arrisquemos. Vamos lá a ver se isto ainda é o túnel da Ribeira. Primeiro, uma pequena, tímida buzinadela, a ver se alguém acusava o toque.
Benditos portuenses, de memórias firmes. Uns escassos segundos depois de duas ou três buzinadelas de resposta à minha já o túnel revivia o passado, ecoando buzinas histriónicas. A quem estava lá mas não é de cá, carago, só restou a mudez do pasmo.
Eu sei que isto tudo é bizarro, que a minha condição de filha da cidade não me tira a lucidez – pelo menos para saber as risadas que provocamos em Cascáix com estas nossas idiossincrasias. Mas somos assim. Encarem-nos, se quiserem, como uma tribo peculiar: trocamos os bês pelos vês, somos fiéis ao Pinto da Costa e temos, entre muitos outros desvios civilizacionais, picheleiros, cimbalinos, cruzetas as e as vendedeiras mais famosas do mundo.
Para quem não sabia, também buzinamos no túnel da Ribeira.

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