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11.11.06

Pequena estória dos nervos

O homem era grande e forte e preto, e parecia perigoso porque bufava muito e não parava quieto, a força toda em cada movimento. A triagem esvaziara-se de quem conseguia andar, como se quem podia andar quisesse dar-lhe espaço para aquela fúria.

O interno não sabia que lhe dizer e pensou, portanto, na sua sabedoria de quem só sabe o que sabe e ignora o resto, que ninguém mais saberia. E, prevendo essa desgraça de ignorâncias, preparou-se para tudo sentindo-se só.

O homem cirandava, pesado e tenso, pela sala ladrilhada. Ia dizendo coisas, sempre a mesma coisa, parecia sempre a mesma coisa. "Tensão, tira!... Tensão, tensão, tensão, tira!". Era sempre a mesma coisa. Era.

O interno cuidou estar perante um hipertenso que, em crise de elevações daquilo das pressões, estivesse possuído duma encefalopatia diferente, que o interno ainda não vira. E, já que alguém tinha de fazer alguma coisa e era ele que ali estava, resolveu interpelar o homem de acordo com a sua interpretação do homem, balbuciando "sente-se aqui, acalme-se, eu meço-lhe a tensão", enquanto se agarrava todo ao aparelho de coluna de mercúrio.

- "Tu não! Tu não. Sai! O César! Chama o César!". Mas alapou no banco.

O César. O César era o internista de serviço, o desdenhoso César, o César que sabia tudo e não ensinava nada, o César que chamava, a todos os internos, "ó rapaz!", sem se entregar à maçada de lhes decorar os nomes "porque estão sempre a mudar, o raio da canalha, logo que prestam vão-se embora!". O César era velho, tinha quase quarenta anos. E nenhum interno, nos seus sonhos de futuros longe, queria parecer-se com o César, afastar-se dele sim, ser como ele não.

- "Chama o César! O César! Tensão! Chama! Tira!".

O interno disse-lhe que sim, que ia chamar, e foi. Voltou com ele, com o César, pensando que iria assistir, como sonhava, ao esmagamento do César. Que lhe tinha respondido, quando o chamara e lhe contara o que se passava, que "não percebes nada desse preto, pois não, rapaz?", o que o magoara novamente na sua falta de nome assim exposta, mesmo que apenas entre os dois, daquela vez.

- César! Anda! Tensão. Tira! Tira tensão!
- Eu tiro, rapaz, eu tiro. Cala-te, fica sentado. Cala-te, quieto, eu tiro-te a tensão.

E o interno viu César colocar o braçal, com mãos que não tremiam, no braço esquerdo do homem grande e tenso. E viu-o insuflá-lo calmamente, e dizendo-lhe sempre, de cada vez mais calmamante, "calma, Mo, calma!", até aos duzentos e quarenta.
O homem, sossegou, numa tensão que lhe mostrava as veias túrgidas da força toda, agora calma, como se tudo ao que tivesse vindo fosse começar ali, a partir dali.

E tudo começou a partir dali, de facto, como se fosse apenas para que o interno se educasse.

O César foi afrouxando, num hábil movimento de dedos, a rodinha que esvaziava o braçal, quase em câmara lenta. Um milímetro de mercúrio de cada vez, muito lentamente, e sempre falando calmo com o homem grande e preto que continuava a dizer "tira, tensão, tira! César, tira!", mas ambos cada vez mais juntos na calma que ali se criara sem razão nenhuma que o interno percebesse, "eu tiro, Mo, eu tiro, eu vou tirando!", "Tira, César, tira!", e a coluna de mercúrio sempre a baixar, na lentidão de César e na precisão de Mo. Até que, aos 100 mm, César falou de novo e perguntou ao preto se sentia que a tensão estava a sair, "sentes sair, Mo, já sentes?", ao que o homem grande respondeu que sim, que já, mas "tira mais um bocadinho César, tira mais!", e o César desinsuflou, sempre devagar, até ao zero, o braçal antigo de muitas medidas e retiradas, altura em que o homem grande e preto se levantou e disse "tiraste, César, já não há tensão, tiraste, tiraste toda!", e o César lhe perguntou "estás bem agora, Mo?", e já estava.

Tanto que saiu logo a seguir, estranhamente calmo e depois de abraçar César, que depois disse ao interno "era a tensão, rapaz, era só tirar-lha, é só o Mo, aprende a conhecer o Mo: quer tirar a tensão, não a quer medir, foi o teu erro, não sabes português".

E o interno passou a detestar César com mais respeito, que é um detestar muito melhor.

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