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10.2.04

A revolução de quarenta

Admito, sem qualquer problema, que me repugna qualquer questão que envolva "superioridades morais". Ainda por cima, lateralizar ou "bipolarizar" superioridades (e logo morais!), é um exercício de geometria duvidosamente útil. Prefiro rótulos nas farmácias e nas mercearias, parecem-me mais úteis aí.

Gosto é de pessoas. Sempre gostei de as observar, de lhes sentir a presença, a falta. De lhes saber cheiros, gestos, recorrências. Sou um profundo crente na falibilidade, na imensa capacidade de nos enganarmos e de não aprendermos grande coisa com os erros, ao contrário do que gostamos de acreditar.
Desconfio, duma forma plácida e, se calhar quase atávica, de todas as teorias redentoras e absolutas. Detesto dogmas, embora pressinta os meus.
Repugnaram-me, sempre, o individualismo bárbaro dos espertos e o colectivismo massificante dos imbecis. Sinto-lhes uma perigosa sinergia, um exercício de potenciação mútua (e alternativa) profundamente nefasto.

No fundo, acho que nunca me darei bem com gente que brada alto razões de baixa estatura. Um bradar tão alto que quase nos faz desatentos da parcialidade e da feição torpemente incompleta daquelas razões. Desde pequeno que dou por mim a pensar "se tivesses razão não gritavas tão alto...". O que me diminui, reconheço, realçando a minha parcial e escassa competência analítica.

Esquerda, direita, volver. Que é isto, de facto?
Eu gosto é de pessoas. Acredito nas reviravoltas do tempo, com o tempo. Como uma inevitabilidade cíclica. Não se brinca todo o tempo com uma panela de pressão sem que, um dia, a tampa salte. Derramando-se de energia potencial. O PREC foi isto, simplesmente. Uma tampa que saltou, revelando, aos borbotões, "nervosos colectivos" a berrar alto demais. Os tempos de hoje são diferentes. De retoma. Retoma-se o necessário, equilibrador (e tão frágil) conceito da prevalência individual, do privado, do "meu" sobre o "nosso". Canta-se a competência, a capacidade, a rendibilidade, sobre a campa da solidariedade. Que solidariedade cheira a social, social cheira a PREC...É normal. Prepara-se, lenta e estouvadamente, o cadinho para nova ebulição que resultará na recriação do mesmo PREC, em tempo diferente. Um PREC diferente, obviamente, de contornos formais (o caixilho) diversos, sendo a essência, o fundamento (a pintura)... sobreponíveis. Também é normal.
Isto não tem a ver com lateralizações. É mesmo circular.
Acredito, mesmo, é na procura eterna do que parece justo. E mesmo nas injustiças que, em nome dessa procura, podem cometer-se. Desconheço perfeições fora dum contexto emocional. Emociono-me, pois, duma forma que é quase paliativa para uma dor. A dor desse desconhecimento de perfeições, que me incomoda.

Desculpem, mas depois dos quarenta parece-nos que sabemos como são as coisas. Não sabemos, mas parece-nos mais.

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