blog caliente.

2.6.06

Lados. Porque ainda os há.

As preocupações do Altino são legítimas. Eu também tenho filhos. E quero ouvi-lo, sim. Quero sempre.

Mas acontece que também sou familiar e amigo de alguns professores e sei que essa assertividade toda que era necessária, esse espírito de missão que parece sempre faltar, esse delegar de competências "em toda a gente", tem uma génese em que os pais (e restantes encarregados de educação) não ficam lá muito bem na fotografia.

Para começar, o Altino refere-se à directora de turma como "a funcionária".
É evidente que ela é isso. Mas é, antes de mais nada, professora. E, por um motivo que não consigo dissociar do que vou dizer a seguir, o Altino decidiu escrever "funcionária" em lugar de "professora".
A palavra "funcionário" é um dos novos deleites da escrevinhação escroque da cadeia neo-liberal (isto existe sem ser em hipermercados?), que caminha - sob face angelical e gorda - de mãos dadas com a delinquência, cadeia essa em que o Altino, em boa verdade, nem sequer encaixa. Por isso, sei que o Altino usou a palavra maldita apenas por irritação de bom pai irritado; não por convicção globalizante, que eu não acredito que ele alinhe na onda generalizadora e apoucadora que algumas centenas de cismadores só de si andam aí a bufar contra quase tudo o que esteja mais de dois metros afastado da sua pança liberta de tudo menos dos intestinos.

Interlúdio que não é com o Altino, nem com ninguém, é só comigo.
Eu aviso, desde já, contudo, que se alguém - um dia, na minha frente - se referir a mim nesses termos, tipo "lá fui eu à consulta do meu funcionário", o mandarei de imediato para a aleivosa que o desovou. Porquê? Porque um tipo que diz isto não está doente. Está é profundamente irritado consigo próprio e a alimentar a sua ânsia de patronato; e, sobretudo, a tentar meter-me num saco de plástico "daqueles onde cabe o que se quiser!", aberto por mãozinhas moles de pregadores murchos.
Nunca se esqueçam, portanto, ao falarem comigo sobre problemas vossos, que quem me consulta são os senhores: eu não os chamei, os senhores é que vieram consultar-me, e eu estou ali para vos ajudar, se puder e souber, mas os senhores mandam tanto em mim como mandam na roupa de baixo do Cavaco Silva ou nas ânsias esotéricas do David Fonseca. Isto é básico, embora não entre na cabeça de quase ninguém, porque as cabeças andam pouco dispostas a que lá entre seja o que for - a não ser pela boca, bastas vezes.
Eu sou médico, é o que sou. Tenho nome e profissão. Como qualquer outro funcionário do estado, por muito complicado que seja dizer isso em momentos nefastos de sublevação da raiva, eu tenho uma profissão que tem uma designação específica e é essa a que melhor me cabe no bestunto. E isto vale para toda a gente. Eu não chamo "funcionário" do Senhor Engenheiro Belmiro a nenhum chefe de gabinete que ele tenha, a nenhum gestor que ele mantenha, a nenhuma secretária do conselho de administração que ele detenha, a nenhum consultor jurídico que ele sustente! Os bois pelos nomes. Em francês, "les hirondelles, tiens, les hirondelles!...".
Fim do interlúdio que não foi com o Altino, nem com ninguém, foi só comigo.

Voltando à educação, e agora é novamente com o Altino, acrescento o seguinte: os pais portugueses estão a ficar como os filhos portugueses, os avós portugueses, as tias portuguesas, os empresários portugueses (lembrei-me deles por falar em tias), as primas e os primos portugueses. Estão a ficar reivindicativos por devoção, por compulsão, por imperativos do seu desgosto, por estarem a ficar incapazes de compor seja o que for.
É típico dos conservadores insistirem em mandar arranjar os canos da casa, reparar a televisão que avariou, botar telhas no telhado que está um bocadinho mal (em lugar de mudar de casa), pôr uma cambota nova no carro velho em lugar de comprar um novo, que há-de vir armado em virgem, essa estupidez de estrear a vida de maneira artificiosa em lugar de a conservar conforme é, o mais possível, melhorando-a.
Eu sou conservador. Uma espécie de conserveiro que dispensa os óleos quase todos sem ser entre cetins.
Pelo contrário, os liberais apostam na destruição do que já há, em estando mal, para fazer de novo. São apaixonados da terraplanagem, o que é característico dos empreiteiros (da desconstrução e da construção, civil ou militar; ou militante).

Não há nada mais criador de delinquência e insatisfação (tirando o nosso clube não ganhar e, mesmo isso, já se vê que vai dar no mesmo), mesmo entre a miudagem, que a competitividade desenfreada parida pelos novos darwins. Com letra pequena, como convém aos substantivos comuns, mesmo que os novos darwins se julguem outra coisa qualquer.

O Altino tem razão: primeiro os nossos filhos. Claro. Não há nenhuma necessidade de professores se não existir ninguém para eles ensinarem seja o que for.
É como a necessidade de médicos: se ninguém adoecer, lá vou eu para as obras (e, às tantas, o capataz da obra será o meu bastonário).
E não é inteligente apoucar lugares comuns como estes dois que acabei de usar, por um motivo simples: as verdades não passam disso mesmo, de lugares comuns, sobretudo depois de estabelecidas e aceites por via da sua própria demonstração.

Mas o respeito pelos professores, se não for demonstrado e exercido em permanência por nós, os pais, enfraquece a nobre arte da docência. Desmotiva. Assusta os artistas. Fá-los "querer ir embora". É natural: num país de heróis antigos é cada vez mais difícil ser herói entre os cobardes da modernidade, que se limitam a berrar (ou a suspirar...) "isto tá tudo mal e ninguém faz nada!".

Tu e eu (e, espero eu, ainda muita gente) não somos nada disso, Altino. Pois não?
Por isso este pequeno texto te não contradiz em nada, sabes? Muito pelo contrário. Apenas te tenta devolver ao lado certo da calma, nesse teu momento de pressentida revolta.
O lado bom ainda é este, não é?

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