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12.4.07

Esguichos de besugo

1 - A entrevista

Foi nervosa. José Alberto Carvalho esteve mais tenso e severo do que costuma estar, não tem perfil de inquisidor. Já a outra - a que faz de "sparring-partner" de Marcelo Rebelo de Sousa - esteve ao seu nível: nem sequer evitou alguns remoques de galináceo. Sócrates, esse, esteve entre o perplexo, o irritado, o comprometido e - a partir da meia hora de jogo - o "fodo-vos na segunda parte".

2 - A reacção

a) Marques Mendes quer uma investigação independente. Acho mal. A investigação não, acho que ele pode dizer isso sem mingar, investigue-se, quero lá saber. Independente é que acho mal. Independente era, pelos vistos, a universidade moderna. A moderna no sentido de "aquela de que se fala agora", não me refiro à outra, à moderna mais antiga. Independente era, supostamente, aquele jornal que serviu de trampolim ao Paulo Portas para me pairar na lembrança. Independente e ignomínia começam pela mesma letra.

b) A SIC fez uma daquelas sondagens telefónicas que costuma fazer, tipo TVI e SLB, e parece que - ao contrário do que a SIC previra - Sócrates convenceu. Não acho bem que tenha convencido, a mim não me convenceu, por exemplo - nem tem de convencer -, mas acho deprimentes estes inquéritos assim, que tanto servem para avaliar um primeiro-ministro, como um concorrente do Big Brother, como uma canção do festival, como outra merda qualquer.

c) Na Quadratura do Círculo, Jorge Coelho esteve quixotesco. Fez lembrar Sousa Tavares, quando defende o FCP em crónicas coléricas e coleréticas, escritas sobre desérticas dunas, havendo vento: tanta areiazinha fina. Já Pacheco Pereira colocou a questão, como de costume. É o que ele faz melhor, colocar questões. As questões existem, ele coloca-as. Há quem diga que também as cria, às questões, e eu até o acho capaz disso, veja-se abaixo, mas parece-me que o que lhe dá mais gozo nem é criá-las: é colocá-las, pô-las no sítio em que ele acha que elas devem estar. É um filatelista de caderneta, um dos que mexe nos selos com pinças lavadas. Gosto disso.

3 - O resumo

Temos, salvo erro, um primeiro-ministro que é engenheiro, mas que andou a dizer que já o era antes de o ser. Quero crer, como Jorge Coelho, que isso não tem importância nenhuma: acabou por o ser, que importa se mentiu antes, se tudo não passou duma antecipação do futuro, que -ainda por cima - agora é passado?
Mas não consigo. Não creio nisto. Sócrates tem o olhar e o gesto fugidio dos que espreitam "janelas de oportunidade". Ele próprio instalou esta expressão nas nossas vidas, "janelas de oportunidade".
Eu aprecio o oportunismo, por exemplo, num ponta-de-lança do Sporting. Mas não sei se sou capaz de generalizar o apreço por esta característica às pessoas de quem gosto. Ou às outras todas, que não sejam pontas-de-lança do Sporting. Sai daí, Postiga, que estás fodido.

Portanto, das duas uma: ou eu não gosto de Sócrates, ou - e isto tem muito de cumulativo e de catárctico -deixei de gostar de vez.

4 - A questão de Pacheco

Não é irrelevante e é, até, a única a que falta responder (a do favorecimento, a meu ver, já está respondida na ausência de resposta): "está bem, ele disse umas mentirolas quando era jovem - tinha 40 anos, mas está bem, foda-se, era jovem e impulsivo e essas merdas -, isso desculpa-se, mas agora é primeiro-ministro, tem maioria absoluta, e eu quero saber se ele não será tão leviano a tratar dos nossos assuntos como foi ao tratar do seu curriculum."

Isto é verrinoso, não passa disso, mas é a única coisa que pode ser dita sem parecer chuva no molhado. E foi Pacheco Pereira quem a disse, em piso seco, pneus "slicks" em ordem, o sacana.

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